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Infância e Brincar: O jogo como linguagem da criança

  • Foto do escritor: Melina Garcia Gorjon
    Melina Garcia Gorjon
  • 28 de jul.
  • 2 min de leitura

Brincar é muito mais do que uma simples forma de entretenimento infantil. Na perspectiva psicanalítica, o jogo é uma das principais formas de expressão da criança — um meio pelo qual ela elabora sentimentos, compreende o mundo ao seu redor e se posiciona subjetivamente diante da vida. Desde os primeiros meses de vida, o brincar já se apresenta como uma linguagem própria, anterior à fala, mas profundamente simbólica.


criança brincando no chão
Brincar é a forma como a criança fala o que ainda não pode dizer com palavras — é sua maneira de sentir, elaborar e existir no mundo

Durante o primeiro ano de vida, a atividade lúdica surge de maneira espontânea, relacionada a experiências corporais, à exploração do ambiente e à relação com os objetos e com as figuras parentais. Através do jogo de esconder, por exemplo, o bebê elabora a angústia da separação e da perda. A repetição desses gestos revela sua tentativa de lidar com a ausência e de simbolizar o retorno do objeto amado, geralmente representado pela mãe.

O brinquedo não é apenas uma atividade motora ou cognitiva. Ele funciona como uma forma de descarga emocional e como instrumento de elaboração psíquica. Por meio do brincar, a criança transforma experiências dolorosas ou complexas em cenas que pode controlar, modificar e repetir até que se tornem mais toleráveis. Essa capacidade de simbolização é fundamental para o desenvolvimento saudável do psiquismo.

Ao longo dos primeiros anos, os brinquedos e os modos de brincar acompanham as mudanças internas da criança. Os objetos de colocar e tirar, por exemplo, surgem como expressão simbólica da genitalidade e das primeiras diferenciações entre os sexos. Já os jogos com bonecas, vasilhas e alimentos refletem as vivências em torno da maternidade, da paternidade e da alimentação — experiências que carregam significados afetivos e inconscientes.

É por isso que a ausência ou empobrecimento do brincar pode ser um sinal de alerta. Crianças que não brincam ou que têm uma atividade lúdica muito restrita podem estar vivenciando dificuldades internas profundas. O jogo, nesse sentido, não apenas expressa, mas também transforma. Ele permite que a criança construa sentido para suas emoções e crie possibilidades de enfrentamento frente aos desafios do crescimento.

  O brincar é um modo de investigação da criança, envolve um tipo de pensamento ativo e emocional, por meio do qual a criança experimenta formas de domínio simbólico sobre situações desconhecidas ou angustiantes. O brincar torna-se, assim, um espaço de criação e elaboração, em que a criança pode expressar perguntas para as quais ainda não possui palavras.

O brincar é também uma preparação para o simbólico, para a linguagem e para os vínculos sociais. É no jogo que a criança aprende a lidar com regras, com a frustração, com a espera e com o outro. Por isso, oferecer espaços e tempos de brincar, respeitando a espontaneidade e a criatividade infantis, é também sustentar um cuidado subjetivo e afetivo essencial à infância.



Este texto foi inspirado na obra A Criança e Seus Jogos, de Arminda Aberastury.

 
 

Psicóloga Melina G. Gorjon (CRP 06/146718)

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